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Doença de crohn

A doença de Crohn é uma patologia crônica inflamatória intestinal, que atinge geralmente o íleo terminal e o cólon, no entanto, pode acometer qualquer parte do trato gastrointestinal. É extremamente invasiva e compromete todas as camadas da parede intestinal. Atualmente não há cura para essa doença, mas os tratamentos permitem alívio dos sintomas e melhoria de qualidade de vida.

Epidemiologia

  • A doença existe no mundo todo, porém com grandes variações regionais de prevalência. É mais comum em caucasianos, sendo mais frequente na Inglaterra, nos EUA e em países escandinavos. Nos EUA, é mais comum nos judeus do que nos não judeus. Ocorre em qualquer idade, sendo mais prevalente de 20 a 40 anos e ligeiramente mais comum no sexo feminino. Estudos epidemiológicos bem conduzidos mostram aumento de sua incidência nos últimos anos, o que não pode ser atribuído apenas ao aprimoramento dos meios de diagnóstico. A ocorrência da doença nos EUA é de sete casos a cada 100 mil indivíduos, na Europa, na África do Sul e na Austrália a ocorrência encontra-se em torno de 0,9 – 3,1 casos a cada 100 mil indivíduos, e na América do Sul e na Ásia a prevalência encontra-se em torno de 0,5 – 0,8 casos a cada 100 mil indivíduos.

Etiologia

  • A etiologia é ainda oficialmente desconhecida. No entanto, supõe-se que seja resultado de hiperatividade intestinal do sistema imunitário digestivo por ação de fatores ambientais associados à tendência genética. Pode ter relação com a doença reumática espondilite anquilosante.
  • Julga-se que esse fator ambiental é, provavelmente, um vírus ou uma bactéria que desencadeia uma reação inflamatória descontrolada e inapropriada nas paredes do intestino, que depois se torna independente do agente inicial. A doença cursa com formação de granulomas, uma forma de defesa específica do sistema imunitário contra algumas bactérias intracelulares ou fungos. Uma teoria que tem sido suportada ultimamente em alguns estudos é a de que o agente desencadeador seja o Mycobacterium avium complexo. Contudo, é importante frisar que apesar de possivelmente desencadeada por um agente infeccioso, a doença ocorre por causa da desregulação das defesas do próprio indivíduo devido a fatores genéticos (alguns genes do MHC), não sendo causada pelo micróbio. Em indivíduos sem essa susceptibilidade, esse microorganismo nunca causa a doença.
  • Estuda-se também uma possível relação entre a doença e os fatores de fundo psicológico (já que o indivíduo possui o problema, mas pode manifestá-lo ou não).

Sinais e sintomas

  • A doença afeta qualquer porção do trato gastrointestinal, mas é mais comum no íleo terminal e cólon. Neste local ocorre formação de granulomas e inflamação em setores distintos, intercalados de forma bem delimitada por outros completamente saudáveis (ao contrário das lesões difusas na colite ulcerosa-CI).
  • A doença progride com alguns períodos sintomáticos interrompidos e com outros sem sintomas. Pode progredir continuamente com deterioração das lesões, ou ser não progressiva, com regeneração das regiões atingidas entre as crises. Metade dos doentes apresenta lesões em ambos íleo e cólon, enquanto 25% apresentam-nas limitadas ao cólon.
  • Os sintomas mais comuns são diarreia e dor abdominal, geralmente à volta do umbigo, na região mais baixa à direita (muitas vezes é confundida com a apendicite), acompanhada de náuseas e vômitos acompanhados de febre moderada, sensação de distensão abdominal piorada com as refeições, perda de apetite e peso (podem provocar atraso de desenvolvimento e problemas de crescimento em adolescentes), mal-estar geral e cansaço. Nas fezes pode haver eliminação de sangue, muco ou pus. Outras crises que poderão aparecer, apesar de serem raras, são crises respiratórias, em que a pessoa está sempre com ataques violentos de tosse, principalmente durante a noite. A pessoa não consegue dormir deitada e com a força da tosse, pode vomitar e ficar com faltas de ar pouco prolongadas. Esse episódio costuma demorar sensivelmente uma semana, dependendo dos casos.
  • Em alguns casos, pode haver aftas, artralgias, eritema nodoso, inflamação nos olhos (conjuntivite secundária), problemas nos vasos sanguíneos (tromboses ou embolias) e deficiência de ferro, vitamina B12 e ácido fólico.
  • As complicações são possíveis com a repetição das crises: artralgias ou artrite, em alguns casos, abcessos e fístulas (comunicações anormais que facilitam infecções), obstruções intestinais (devido à inflamação ou às aderências de partes inflamadas dos intestinos e à fibrosação durante as cicatrizações), cálculos vesiculares (devido a reabsorsão intestinal irregular dos sais biliares). São ainda comuns as fissuras e abcessos anais.
  • Menos frequentemente, pode ocorrer sangramento ou perfuração intestinal com peritonite. O cancro do cólon é raro, ao contrário da colite ulcerosa.
  • Como dito acima, estudam-se fatores de ativação que levam à manifestação da doença. Há indivíduos que a possuem, mas nunca a manifestam. Há indivíduos que a manifestam uma única vez na vida. Podem ocorrer diversas situações.
  • Crohn se caracteriza por seus diferentes períodos. Pode estar em atividade (quando surgem os sintomas); ou pode estar inativa, ou remissiva (quando os sintomas cessam).

Diagnóstico

  • O diagnóstico por imagem normalmente é feito com tomografia contrastada (endovenoso e oral juntos). O paciente acometido mostrará desde inflamações, espessamento, estenoses e massas tumorais ( casos em que a inflamação se tornou cancerígena).
  • Para melhor estudar o trânsito intestinal, o paciente faz uma ingestão de bário (entre 480 a 600 ml). Faz-se flagrantes fluoroscópicos e radiográficos do intestino delgado a intervalos de 20 a 30 minutos até que o cólon se encha. Na fluoroscopia, observa-se a motilidade das alças do delgado e se detecta qualquer processo focal anormal, tal como aderência, tumor ou hérnia. Este ciclo é respeitado até o bário chegar ao cólon, em cujo momento obtém-se flagrantes fluoroscópicos e radiográficos do íleo terminal.
  • A melhor forma de confirmação é a colonoscopia, procedimento em que uma câmera irá filmar como está tudo internamente, desde do reto atá aproximadamente 20 cm adentro do íleo terminal. Muitas vezes a colonoscopia aparenta estar normal, mas na biópsia pode-se identificar ileite, colite e retite, mostrando que todo o intestino está inflamado.
  • Dois exames de sangue, ASCA e p-ANCA, podem ser usados no diagnóstico da doença, mas não são confirmatórios e são limitados devido ao seu custo elevado. Análises de sangue permitem ainda verificar se há anemia (que pode indicar sangramento no intestino), e se há uma alta taxa de glóbulos brancos (sinal de infecções algures no corpo). A tomografia computadorizada é também útil, assim como as biópsias.
  • A distinção com a colite ulcerosa e a eliminação de possíveis diagnósticos alternativos, como gastrenterites bacterianas ou parasitárias, são importantes na escolha de tratamentos.

Tratamento

  • O tratamento depende da localização, severidade da doença, complicações e resposta aos tratamentos anteriores. Pretende-se reduzir a inflamação, corrigir deficiências nutricionais e aliviar os sintomas. O tratamento pode incluir medicação, complementos nutricionais, cirurgia ou a combinação dos três. Os fármacos mais usados são imunodepressores, como aminosalicilatos, corticosteroides. A cirurgia com excisão das regiões mais afetadas melhora o prognóstico dos casos mais graves.
  • Não é possível predizer quando ocorrem os sintomas e regressões; um doente necessita de consultas regulares e vigilância médica.
  • Algumas pessoas sofrem de intolerância alimentar – lactose, comida picante, chocolate, álcool, café, leguminosas e especiarias; assim, o regime alimentar deve ser individualizado. Por meio de dietoterapia, pretende-se manter ou aumentar o peso, utilizando os hidratos de carbono de absorção rápida, bem como gorduras em uma quantidade bem tolerada.
  • Os fármacos do grupo dos aminosalicilatos são usados com algum sucesso em seu controle, mas menos para a colite ulcerosa. Para além desses, são usados corticosteroides, imunossupressores (azatioprina) e, mais recentemente, medicamentos biológicos (infliximab e adalimumab).
  • O controle dos sintomas com a medicação adequada pode prolongar o período de inativade ou mesmo anular os períodos de atividade. Há casos em que o paciente passou a não tomar mais remédios depois de tratado com os medicamentos corretos, apenas controlou sua doença com a dieta.
  • Em alguns casos o paciente pode ser submetido a uma intervenção cirúrgica.

Prognóstico

  • A maioria dos casos é moderada e controlada pela medicação, e a vida normal é possível. A taxa de mortalidade é de 15% em 30 anos com a doença. No entanto, pode ser muito debilitante para alguns, mas não provoca a morte.
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mar 25, 2014 | Publicado por in Especialidades | Comentários desativados